

Eu, Tobit, na noite de Pentecostes, depois de ter sepultado um morto, tomei banho, entrei no pátio de minha casa e deitei-me junto à parede do pátio, deixando o rosto descoberto por causa do calor. Não sabia que, na parede, por cima de mim, havia pardais aninhados. Seu excremento quente caiu nos meus olhos e provocou manchas brancas. Fui procurar os médicos para me tratarem. Quanto mais remédios me aplicavam, mais meus olhos se obscureciam com as manchas, até que fiquei completamente cego. Durante quatro anos estive privado da vista. Todos os meus irmãos se afligiram por minha causa. Aicar cuidou do meu sustento durante dois anos, até que partiu para Elimaida. Naquela ocasião, Ana, minha mulher, dedicou-se a trabalhos femininos, tecendo lã. Entregava o produto aos patrões e estes lhe pagavam o salário No sétimo dia do mês de Distros, ela separou a peça de tecido que estava pronta, e mandou-a aos patrões. Estes pagaram-lhe todo o salário e ainda lhe deram um cabrito para a mesa. Quando entrou em minha casa, o cabrito começou a balar. Chamei minha mulher e perguntei-lhe: “De onde vem este cabrito? Não terá sido roubado? Devolve-o a seus donos, pois não temos o direito de comer coisa alguma roubada”. Ela respondeu-me: ‘É um presente que me foi dado além do salário’. Mas não acreditei nela e insisti que o devolvesse aos patrões, ficando bastante contrariado por causa disso. Ela então replicou: ‘Onde estão as tuas esmolas? Onde estão as tuas obras de justiça? Vê-se bem em ti o que elas são!”
Feliz o homem que respeita o Senhor e que ama com carinho a sua lei! Sua descendência será forte sobre a terra, abençoada a geração dos homens retos! Ele não teme receber notícias más: confiando em Deus, seu coração está seguro. Seu coração está tranquilo e nada teme, e confusos há de ver seus inimigos. Ele reparte com os pobres os seus bens, permanece para sempre o bem que fez, e crescerão a sua glória e seu poder.
Que o Pai do Senhor Jesus Cristo vos dê o Espírito de sabedoria, para que conheçais a esperança reservada para vós como herança, nos céus!
Naquele tempo, as autoridades mandaram alguns fariseus e alguns partidários de Herodes para apanharem Jesus em alguma palavra. Quando chegaram, disseram a Jesus: “Mestre, sabemos que tu és verdadeiro e não dás preferência a ninguém. Com efeito, tu não olhas para as aparências do homem, mas ensinas, com verdade, o caminho de Deus. Dize-nos: é lícito ou não pagar o imposto a César? Devemos pagar ou não?” Jesus percebeu a hipocrisia deles e respondeu: “Por que me tentais? Trazei-me uma moeda, para que eu a veja”. Eles levaram a moeda, e Jesus perguntou: “De quem é a figura e a inscrição que estão nessa moeda?” Eles responderam: “De César”. Então Jesus disse: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. E eles ficaram admirados com Jesus.
Caríssimos irmãos em Cristo nosso Senhor! A Liturgia da Palavra de hoje nos nos deu um vigoroso testemunho de vida de dois homens, Jesus Cristo e Tobit, que eram justos e santos, por terem enfrentado com coragem e fé inúmeras provações, tribulações e perseguições de seus inimigos. Pois, eles eram odiados e perseguidos exatamente por serem justos, santos, fiéis cumpridores da Lei de Deus!
Os antigos judeus, antes do Exílio na Babilônia, acreditavam que todos os filhos de Israel que fossem fiéis cumpridores da Lei seriam agraciado e abençoado por Deus, da mesma forma como dizia o salmista: “É feliz o homem que respeita o Senhor e que ama com carinho a sua lei! Sua descendência será forte sobre a terra, abençoada a geração dos homens retos” (Sl 111, 1)! Porém, com o passar do tempo, a vida foi lhes ensinando que os justos e os fiéis cumpridores da Lei poderiam, apesar de tudo, passar por grandes provações, cair na miséria e passar por grandes sofrimentos e enfermidades, ou até ser perseguido e maltratado injustamente.
Esta dura realidade, aos poucos, foi sendo percebida por aquelas pessoas que passaram por grandes tribulações, sem terem sido merecedoras de tamanho castigo, por serem justas e observantes da Lei. Estes começaram a acreditar que Deus teria um outro propósito com tudo isto. Assim, lá em Nínive, no exílio, Tobit aprendeu com sua própria experiência de vida que o justo também podia passar por grandes dificuldades, mas teria que suportá-las com coragem e resignação, apoiando-se na mão de Deus, com fé e confiança. Isto o fez dizer o seguinte: “Pois eu, Tobit, andei nos caminhos da verdade e da justiça todos os dias da minha vida. Dei muitas vezes esmolas aos meus irmãos e compatriotas que comigo foram deportados para Nínive, no país dos assírios” (Tb 1, 3).
Portanto, apesar de ser justo e cumpridor fiel da Lei de Deus, Tobit era perseguido e maltratado exatamente por ser justo e misericordioso, conforme o seu testemunho: “Eis que, depois que o sol se escondeu, fui cavar uma sepultura e enterrei o cadáver. Meus vizinhos zombavam, dizendo: “Ele ainda não tem medo. Já foi procurado para ser morto por esse motivo e teve que fugir. No entanto, está de novo sepultando os mortos!” (Tb 1, 7-8). E, além disto, Tobit teve a infelicidade de sofrer um acidente que o levou a cegueira completa, como ele disse: “Pois meus olhos se obscureciam com as manchas, até que fiquei completamente cego. Durante quatro anos estive privado da vista”(Tb 2, 10). Apesar de tudo isto, nem Tobit e nem seu filho Tobias desistiram de seguir o caminho dos preceitos do Senhor e de praticar atos de misericórdia.
Esta mesma situação de perseguições e humilhações encontramos na vida do santo e justo Jesus Cristo, o Senhor e Salvador de nossas vidas. Ele, mesmo sendo perfeitamente justo e santo, não foi preservado de tribulações e de perseguições provocadas por seus inimigos. Os sumos sacerdotes, os mestres da Lei e os fariseus odiavam-no, exatamente por ser justo e santo. Eles mesmos deram, inadvertidamente, um lisonjeiro testemunho de Jesus, reconhecendo-o como um homem justo, veraz e honesto em tudo o que fazia, ao dizer-lhe: “Mestre, sabemos que tu és verdadeiro e não dás preferência a ninguém. Com efeito, tu não olhas para as aparências do homem, mas ensinas, com verdade, o caminho de Deus” (Mc 12, 14). Contudo, estes mesmos homens o perseguiam e o odiavam com uma inveja incontida, e, por meio de astúcias, procuravam incriminá-lo, afim de matá-lo!
Foram eles, então, ao encontro de Jesus e fizeram a seguinte pergunta: “‘É lícito ou não pagar o imposto a César? Devemos pagar ou não?’ Jesus percebeu a hipocrisia deles e respondeu: ‘Por que me tentais? Trazei-me uma moeda, para que eu a veja’. Eles levaram a moeda, e Jesus perguntou: ‘De quem é a figura e a inscrição que estão nessa moeda?’ Eles responderam: ‘De César’. Então Jesus disse: ‘Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus’. E eles ficaram admirados com Jesus” (Mc 12, 14-17). E assim, por algum momento eles deixaram de importuná-lo, enquanto não lhes aparecia uma outra oportunidade para persegui-lo.
Exatamente por ser justo e santo que Jesus era perseguido e odiado pelos ímpios e pelos malvados! Porém, mesmo sabendo destes infortúnios, ele não se deixou abater por isso, pois Jesus seguia as sábias palavras do salmista que dizia: “O justo não teme receber notícias más: confiando em Deus, seu coração está seguro. Seu coração está tranquilo e nada teme, e confusos há de ver seus inimigos. Há de permanecer para sempre o bem que fez, e crescerão a sua glória e seu poder” (Sl 111, 2-3).
Diante de uma tal situação, o apóstolo Paulo exortava os cristãos de Éfeso a depositarem toda a sua confiança em Deus e na feliz esperanças de sua salvação, dizendo-lhes: “Que o Pai do Senhor Jesus Cristo vos dê o Espírito de sabedoria, para que conheçais a esperança reservada para vós como herança, nos céus” (Ef 1, 17-18)!
"They got up, forced him out of the town, and brought him to the brow of the hill on which their town was built, so that they could throw him down the cliff. But he passed through the crowd and went on his way. (Luke, Chapter 4, 29-30). Woodcut after a drawing by Julius Schnorr von Carolsfeld (German painter, 1794 - 1872) from my archive, published in 1877."
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